E se ganhasse o euromilhões?
Com frequência, dependendo dos candidatos e das posições que irão ocupar, posso fazer esta pergunta: “o que faria se ganhasse o euromilhões?”. A melhor resposta que obtive até hoje foi: “nunca pensei nisso”. Todas as outras, depois da surpresa, são um balbuciar de fantasias e que, em muitos casos, começam por, “ah! deixava de trabalhar”.
Lembrei-me disto a propósito de um artigo saído no jornal PT50 que refere um estudo feito pelo BCE (Banco Central Europeu) em que quatro especialistas quiseram saber a resposta a essa mesma pergunta. O estudo, intitulado “Resposta da oferta de trabalho a ganhos inesperados” , conclui que ganhos inesperados acima dos 100 mil euros têm efeitos na vontade de trabalhar.
Logo a seguir leio outro artigo no jornal Expresso, a partir de um estudo da Page Executive, que nos diz que “mais de metade dos executivos seniores na Europa estão insatisfeitos com o trabalho, seja pela natureza da função que exercem ou pela remuneração a ela associada”.
Parece óbvio que existe um tema na gestão de talentos executivos de topo e também, o que já sabíamos, que se aqueles não estiverem satisfeitos a cascata tende a desenrolar-se até aos níveis mais operacionais.
Se conjugarmos os dois estudos chegamos a um ponto crítico: não se trata apenas de saber o que fazemos quando recebemos “ganhos inesperados”, mas de perceber o que esses ganhos revelam sobre a nossa relação com o trabalho. Se, por um lado, o estudo do BCE demonstra que a disponibilidade para trabalhar diminui quando o retorno financeiro deixa de ser determinante, por outro, o estudo da Page Executive mostra que, mesmo entre quem já ocupa funções de elevada responsabilidade e remuneração, a motivação está longe de ser garantida.
Ou seja, não é apenas a ausência de necessidade económica que afeta a vontade de trabalhar. É também a ausência de propósito – esse conceito tão mencionado – de realização ou de condições adequadas. Quando juntamos as duas peças, percebemos que a questão central não é o dinheiro em si — seja ele inesperado ou insuficiente — mas aquilo que o trabalho representa na vida das pessoas. E no caso dos executivos seniores, essa representação parece estar a sofrer um desgaste importante.
Esta interseção entre incentivos económicos e satisfação profissional deveria alertar as organizações para um problema estrutural: estamos a pedir a líderes que inspirem equipas enquanto, muitas vezes, eles próprios se encontram desmotivados ou alienados do seu papel, desinspirados, no fundo. E quando o topo perde o entusiasmo, a cultura organizacional inevitavelmente ressente-se, com impacto direto nos níveis mais operacionais.
Estes estudos lembram-nos que a gestão de talento — especialmente ao nível executivo — já não pode assentar apenas em remuneração ou estatuto. É preciso repensar o sentido do trabalho, a qualidade da experiência profissional e o modo como mantemos os líderes comprometidos com algo maior do que eles próprios.

