Regular emoções

 Em Colaboração, Cultura de Empresa, Liderança, Prioridades

Num dia de chuva intensa, durante a época natalícia, um rapaz que esperava no passeio para poder atravessar a rua ficou encharcado quando um carro passou por ele. Perante a possibilidade de a cena se repetir com o carro seguinte agarrou numa pedra solta da calçada com a óbvia intenção de a atirar aos vidros do próximo automóvel.

Num jantar de Natal de uma empresa duas pessoas agrediram-se fisicamente após uma troca de palavras mais acesa.

Estes dois episódios, passados na quadra em que todos gritam por fraternidade, paz e amor, acentuam a minha percepção de que a agressividade é cada vez mais a primeira resposta a uma contrariedade, como se tivesse deixado de haver espaço para a mais pequena frustração e sobretudo como se tudo seja possível e todos os comportamentos sejam permitidos a todos, sem filtros ou qualquer tipo de validação.

Muito se tem escrito sobre as causas desta desregulação emocional, os receios e a insegurança causados pelas guerras, o consumo de redes sociais e a frustração que podem causar, as condições de vida precárias, os jovens cujo futuro é nebuloso e se entregam ao momento, e por aí fora. As causas parecem estar à nossa frente mas o que fazer, como alterar ou minimizar esta desregulação colectiva?

Como diz um querido cliente, “se trabalharmos as pessoas elas não fazem barulho”. A que se refere ele? Ao acompanhamento, quer seja de crianças e jovens, quer seja de adultos. O que consta desse acompanhamento? Tudo aquilo que andamos sempre a vender no mundo corporativo: muita comunicação, em todas as direções, muita escuta – a tal  escuta activa, em que não estamos a pensar em nós – e perguntas que levem à reflexão e à retirada de conclusões pelos próprios. Trabalhar as pessoas, é isso, é estar atento.

Esse mesmo cliente falava-me do seu modo de preparar a equipa para o início do dia. Sendo a equipa constituída por cristãos e muçulmanos sugeriu que os dias de trabalho começassem com uma oração cristã numa semana e uma oração muçulmana na semana seguinte, durante um minuto. Todos anuíram e os resultados não se fizeram esperar:  maior tranquilidade, mais tolerância – havendo até trocas de orações entre cristãos e muçulmanos – menos incidentes e, adivinhem… um aumento de produtividade.

Claro que se trata de um ambiente peculiar e que nem todos os líderes vão instituir a oração como prática para aumentar a tolerância e o bem estar numa equipa, mas são os “adultos na sala”, sejam eles professores, pais ou líderes de empresas, que ganharão em criar rituais para que as pessoas regulem as suas emoções, se conectem, se escutem e se aceitem umas às outras. Hoje, sendo comum as equipas constituídas por pessoas das mais variadas culturas é importante exercitar a aceitação da diferença, a aceitação daqueles que vemos como “os outros”.

Quando isso não fôr possível, pedir ajuda externa costuma funcionar. E lembre-se, diz Luc de Brabandere, “A IA ouve mas não escuta”.

Que 2026 seja um ano de esperança!