A senioridade vai ser moda?

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Num país que envelhece a um ritmo acelerado e onde a escassez de mão de obra se faz sentir em múltiplos sectores, seria de esperar que os profissionais seniores fossem vistos como um recurso estratégico. No entanto, a realidade continua a contrariar a lógica: apesar da sua experiência, conhecimento e maturidade profissional, os trabalhadores mais velhos permanecem, em grande medida, afastados das práticas de contratação e retenção das organizações.

Persistem estigmas profundamente enraizados que associam a senioridade à perda de agilidade mental, ao desgaste físico, à resistência à mudança e a expectativas salariais incompatíveis com a competitividade das empresas. Estes preconceitos tornam-se particularmente visíveis em momentos de reestruturação, quando os seniores são frequentemente os primeiros a sair, não por falta de competência, mas pelo peso financeiro que representam. Trata-se de uma visão de curto prazo, que ignora o valor estratégico da experiência acumulada e da estabilidade que estes profissionais podem oferecer.

A tecnologia surge muitas vezes como argumento para justificar a exclusão dos mais velhos do mercado de trabalho. A ideia de que os seniores não conseguem acompanhar a transformação digital alimenta um círculo vicioso: quando não existe uma verdadeira intenção de incluir, também não existe motivação para investir em aprendizagem e atualização de competências. A teoria comportamental da satisfação versus desempenho ajuda a compreender este fenómeno — tendemos a melhorar naquilo em que somos valorizados e a evitar aquilo que nos é constantemente apontado como fraqueza. Excluir gera, inevitavelmente, desactualização.

Curiosamente, a evidência empírica vem contrariar estes estereótipos. Um estudo da EY sobre as motivações das diferentes gerações revela que são precisamente os profissionais seniores os que mais valorizam a inovação tecnológica nas empresas, bem como o seu papel social e ambiental. Talvez porque, para os mais jovens, a tecnologia é um dado adquirido, enquanto para os mais experientes representa um verdadeiro instrumento de evolução, impacto e diferenciação.

Mais do que um desafio demográfico ou económico, a valorização da senioridade é, sobretudo, um desafio cultural. As organizações precisam de reaprender a olhar para os profissionais mais velhos como pessoas com ambição, curiosidade intelectual e vontade de continuar a contribuir. O trabalho intergeracional é uma oportunidade ainda pouco explorada: os jovens beneficiam da visão estratégica, da experiência e da capacidade de análise dos seniores, enquanto estes encontram nos mais novos um estímulo à aprendizagem contínua e à adaptação a novas formas de trabalhar.

O que verdadeiramente motiva os profissionais seniores não é apenas a remuneração, mas o reconhecimento do valor da sua experiência, a possibilidade de assumirem papéis de mentoria, a flexibilidade para conciliar o seu ritmo com o da organização e a existência de ambientes de trabalho baseados na escuta e no respeito. Em contraste, os mais jovens tendem a procurar progressão rápida e planos de carreira claros, o que os torna mais móveis e menos disponíveis para relações laborais de longo prazo. A senioridade traz, assim, um ativo cada vez mais raro: estabilidade aliada a visão crítica.

Num tempo em que a diversidade e a inclusão são temas centrais no discurso corporativo, a idade continua, paradoxalmente, a ser uma dimensão negligenciada. A diversidade etária deve integrar, de forma clara e assumida, o portefólio da diversidade nas organizações, a par do género, da etnia, da religião ou da orientação sexual. Ignorar esta dimensão é comprometer a sustentabilidade do próprio modelo organizacional.

Como defende Paul Jarvis em Company of One, talvez o futuro das empresas passe menos por crescer a qualquer custo, e mais por fazer melhor. Uma cultura focada exclusivamente no aumento de receitas, clientes ou produtividade tende a excluir quem não se encaixa num ideal estreito de performance imediata. Já ambientes diversos e inclusivos, que valorizam o que cada pessoa sabe fazer melhor, revelam-se mais produtivos, mais resilientes e mais humanos.

A senioridade não precisa de “ficar na moda”. Precisa, sim, de deixar de ser invisível. Porque no mundo do trabalho em profunda transformação, desperdiçar experiência não é apenas um erro social, é um erro estratégico.