Em agosto é um descanso

 Em Coaching, Cultura de Empresa, Liderança, Mudança

Em conversa com a minha gestora de conta bancária, dois dias depois do seu regresso de férias, perguntei-lhe como tinham corrido. Respondeu-me: “Oh! Já me esqueci delas e já ía outra vez.” Numa empresa cliente, fiz a mesma pergunta às pessoas que fui encontrando. Uma delas respondeu-me: “Só pude tirar uma semana. Vou tirar outra lá para diante, mas é melhor assim, porque em agosto não está quase ninguém. É um descanso.”

Poderia continuar com inúmeros exemplos de pessoas cansadas que não descansam ou, na pior das hipóteses, de pessoas insatisfeitas com o trabalho, com aquilo que fazem e, pior ainda, com as suas lideranças.

Todos os anos tenho vindo a escrever sobre o regresso de férias e até já propus algumas “dicas” para enfrentar a mudança que deprime tantos e à qual, como a tudo na vida, acabamos por nos habituar. Este ano, porém, e porque há sem dúvida uma inflação de dicas à distância de um clique, parece-me mais útil parar para pensar nos verdadeiros motivos da náusea que, para algumas pessoas, o regresso provoca, até porque talvez o problema não esteja no regresso, e sim, talvez, naquilo a que regressamos.

Em primeiro lugar, há o ritmo a que tudo se processa hoje em dia. Vejo, por exemplo, automobilistas numa estrada de terra batida, em direção à praia, a uma velocidade capaz de fazer inveja ao INEM. Não consigo deixar de pensar: serão pessoas que não conseguem desligar do ritmo que lhes é imposto — ou que impõem a si próprias — na empresa? Se nem a caminho da praia conseguimos abrandar, como podemos esperar que duas semanas de férias sejam suficientes para recuperar meses de aceleração? O descanso não é apenas uma mudança de lugar, até pode ser só uma mudança de ritmo e talvez estejamos a perder a capacidade de mudar de ritmo.

Depois, há aquilo que nos espera no regresso. Quando o ritmo é imposto de fora e não existe sequer a possibilidade de escolher quando fazer férias, porque é preciso coincidir com a chefia, com a equipa ou com as necessidades do negócio, o regresso pode ser particularmente penoso. É aqui que entramos no território da liderança.

Uma organização onde tudo depende da disponibilidade de uma pessoa, onde a autonomia é reduzida, onde a iniciativa é vista com desconfiança e onde a ausência de alguém significa inevitavelmente acumulação, urgência e pressão, não tem apenas um problema de organização, tem um problema de liderança. Liderar também é criar condições para que as pessoas possam estar ausentes sem que tudo pare, é desenvolver autonomia, distribuir responsabilidade, confiar e preparar a equipa para funcionar sem a presença constante do líder.

Ah! e o meu mantra: escutar. Talvez devêssemos prestar mais atenção à forma como as pessoas respondem à pergunta “Como foram as férias?”.

“Já me esqueci delas”, “Foi só uma semana”,“É melhor assim, em agosto não está cá quase ninguém.” São respostas banais, dirão alguns, e são mas também podem ser pequenos sinais de algo que merece ser ouvido.

Finalmente, uma terceira possibilidade, talvez a mais incómoda: o problema pode estar na própria pessoa.

Pode estar insatisfeita com a natureza do trabalho ou a olhar para uma rotina onde antes via um desafio, pode sentir que o esforço deixou de ser reconhecido, ou considerar que a remuneração não corresponde ao seu contributo, pode até ter deixado de encontrar sentido naquilo que faz, e, no entanto, não quer mudar porque não sabe como o fazer e habitua-se.

Habituamo-nos a estar cansados, a não gostar muito, a esperar pelo fim de semana, depois pelas férias, depois pelas próximas férias, até que aquilo que era excepção passa a ser a nossa normalidade. Esta pode ser a parte mais perigosa: o ser humano tem uma extraordinária capacidade de adaptação mas adaptarmo-nos não significa necessariamente estarmos bem, i.e., podemos habituar-nos ao desconforto sem deixarmos de estar desconfortáveis. Podemos até habituar-nos a um trabalho que já não nos entusiasma, a uma liderança que não nos inspira, a uma organização que nos drena.

Mesmo assim podemos continuar a funcionar, a entregar, a cumprir e a sorrir até ao dia em que percebemos que o desgaste acumulado é muito maior do que imaginávamos e que recuperar pode ser bastante mais difícil do que descansar.

Por isso, talvez possamos trocar a pergunta “Como sobreviver ao regresso de férias?” por outra, bastante mais desconfortável: “O que é que torna tão difícil regressar?”

Se a resposta for apenas “porque as férias acabaram”, talvez não haja muito mais para pensar mas se a resposta for “porque não gosto do trabalho que me espera”, “porque sei que vou voltar ao mesmo ritmo”, “porque o meu chefe me vai voltar a controlar”, “porque não tenho autonomia”, “porque nada mudou” ou simplesmente “porque estou cansado há demasiado tempo”, então talvez as férias não sejam o problema e sejam apenas o intervalo que nos permite perceber que existe um problema.

Mesmo assim não resisto a uma dica: Já pensou em recomeçar numa sexta feira em vez de a uma segunda feira?