De que líderes precisamos?

 Em Liderança

Por vezes acontece, em Portugal, em contextos de formação em liderança, encontrar participantes que estão fisicamente presentes mas mentalmente ausentes. O olhar preso ao telemóvel, a postura de desinteresse perante os conteúdos ou a atitude de quem “já sabe tudo” revelam, muitas vezes, menos sobre a qualidade da formação e mais sobre a forma como a pessoa se posiciona perante o ato de aprender. Em alguns casos, há ainda uma presença mais resignada: pessoas que estão ali porque “têm de estar”, e não porque escolheram genuinamente esse momento de desenvolvimento.

Ao longo do tempo, uma das aprendizagens mais importantes na facilitação de grupos é esta: raramente existem participantes  que são “difíceis” por natureza; existem, sim, facilitadores mais ou menos preparados para lidar com dinâmicas humanas complexas. Ainda assim, seria ingénuo ignorar que a forma como alguém ocupa um espaço de aprendizagem é, em si mesma, um reflexo do seu estilo de trabalho e de liderança.

E é precisamente aqui que a questão se torna mais profunda: que tipo de líder se está a formar quando não está verdadeiramente presente?

Como é que uma equipa interpreta um líder que, em reuniões ou momentos de interação, mantém o olhar fixo no ecrã enquanto alguém fala? Que leitura faz uma equipa de alguém que desvaloriza contributos sem os explorar, sem curiosidade, sem devolver valor? Que impacto tem um líder que transmite, de forma explícita ou subtil, que o tempo dedicado a refletir, aprender ou desenvolver competências é um “tempo perdido” face à urgência das tarefas operacionais?

A liderança manifesta-se tanto no que se diz como no que se faz, mas também — e talvez sobretudo — na forma como se está. Estar presente é mais do que estar disponível no calendário; é oferecer atenção real, escuta genuína e respeito pelo outro. Quando isso falha, instala-se uma mensagem silenciosa, mas poderosa: “o que está a ser dito aqui não é suficientemente importante para me merecer total presença”.

Ora, nenhum discurso sobre engagement, cultura organizacional ou motivação sobrevive a este tipo de incoerência.

Precisamos, por isso, de líderes que não confundam ocupação com impacto, nem urgência com importância. Líderes que entendam que a aprendizagem contínua não é um luxo nem uma pausa improdutiva, mas uma condição essencial da sua própria eficácia. Líderes capazes de entrar numa sala — seja de formação, de reunião ou de decisão — e reconhecer que a qualidade da sua presença influencia diretamente a qualidade da participação dos outros.

Mais do que líderes que sabem tudo precisamos de líderes que permanecem disponíveis para aprender. Mais do que líderes que respondem rápido precisamos de líderes que escutam com atenção. Mais do que líderes que demonstram controlo precisamos de líderes que demonstram presença.

Aquilo que as equipas seguem não são apenas competências ou resultados, elas seguem sobretudo comportamentos. E a presença de um líder é, muitas vezes, o primeiro e mais claro sinal do tipo de cultura que ele está a construir.