O que a vida nos ensina sobre fusões

 Em Cultura de Empresa, Desenvolvimento, Mudança, Prioridades, Propósito

Mais do que um exercício logístico, desfazer uma casa de família é acima de tudo um processo emocional. Cada objeto carrega histórias, rotinas, identidades e as memórias guardadas parece que não cabem em caixas.

Recentemente, vivi esse processo: integrar uma casa cheia de passado na minha casa atual, com os seus próprios ritmos e significados. No meio desse caminho, dei comigo a pensar que estava, na prática, a viver uma fusão, não de empresas mas de histórias. Contudo, tal como nas fusões empresariais, a pergunta central não era “o que cabe?”, mas sim
“o que faz sentido manter e o que precisamos deixar ir?”. E comecei a fazer comparações:

Numa casa de família quase tudo tem valor emocional, numa empresa quase tudo tem história (processos, equipas, formas de trabalhar) embora seja certo que o valor passado não garante relevância futura. Se há objetos que foram essenciais durante décadas, tal como há práticas organizacionais que fizeram sentido durante anos, podem não servir o presente. O desafio está em distinguir o que é memória do que é função. Guardar tudo, seja numa casa ou numa empresa, pode impedir a evolução.

Uma das ilusões numa fusão é acreditar que basta juntar duas realidades e que o resultado será uma soma equilibrada. Acontece que não é, nem em casas, nem em empresas: quando duas casas se tornam uma, não é possível manter todas as rotinas, nem todas as estéticas convivem e nem todos os hábitos fazem sentido juntos – e o mesmo acontece nas organizações. As culturas não se somam, reinventam-se e a nova identidade não é uma média, é uma escolha.

Há um custo invisível nas decisões e cada uma,  seja manter ou deixar, tem um custo emocional. Na casa, um móvel pode representar uma pessoa e uma peça pode carregar uma fase da vida. Numa empresa, um processo pode representar uma equipa e uma decisão pode tocar na identidade profissional de alguém. Por isso, decidir não é apenas racional, nunca é. Ignorar esse lado emocional é um dos maiores erros em qualquer fusão.

Num processo de fusão há uma tentação perigosa: olhar para pessoas como linhas de custo. Tal como numa casa é fácil descartar um móvel antigo porque é mais pesado, ocupa mais espaço ou exige manutenção. Só que, muitas vezes, esse móvel é o que tem mais qualidade, mais história e mais potencial. Com as pessoas acontece o mesmo, profissionais mais experientes podem ser vistos como “mais caros”, podem parecer menos ajustados ao novo contexto à primeira vista, mas são, frequentemente, guardiões de conhecimento crítico, constituem-se como referências culturais e são peças de estabilidade em momentos de mudança. Tal como um móvel antigo, podem precisar de “restauro”, ou seja, de requalificação, reposicionamento e novas responsabilidades.

Descartar automaticamente o que é mais antigo pode ser não só injusto mas um erro estratégico. Há coisas, e pessoas, que só sobrevivem se mudarem de forma, nem tudo precisa de desaparecer mas nem tudo pode ficar igual: uma mesa que muda de divisão ou uma peça que ganha outra função, tal como talentos que assumem novos papéis.

Uma das grandes lições deste processo foi perceber que o espaço limitado obriga a clareza e isso, longe de ser um problema, é uma vantagem pois força decisões, elimina redundâncias e revela prioridades. Nas organizações, o mesmo se aplica: o foco estratégico exige renúncia e o crescimento exige simplificação.

Numa fusão podem perder-se referências, formas de trabalhar e até pessoas mas é preciso garantir que o melhor de cada parte encontra lugar, evolui e contribui para algo maior.