Já não se aguenta a mesa de ping pong
Há cerca de dois anos tive oportunidade de visitar um escritório de uma companhia high tech em Washington. Distribuídos por três andares, os espaços de trabalho eram sedutores, divertidos e as pessoas… trabalhavam. Havia mesmo um empregado cuja função era ocupar-se do meio ambiente do escritório, i.e., as suas responsabilidades incluíam zelar pela manutenção de equipamentos, providenciar todas as aquisições e ter sempre presente o bem-estar das pessoas, desde comida até às flores que alguém quisesse enviar a alguém. Curiosamente, no final desse ano, um número significativo de empregados foi dispensado numa operação relâmpago que honrou a divisa ‘se tem que despedir, despeça rápido’.
Por força das multinacionais e da globalização, também as empresas em Portugal aderiram aos escritórios cool, cheios de cor, de poufs, de cestas de fruta, de frases nas paredes e muitos deles das inevitáveis mesas de ping pong, de bilhar ou de matraquilhos.
A ideia é , como sabemos, já que passamos a maior parte do nosso tempo no escritório, que seja o mais agradável possível e que permita tempos de pausa ao ritmo de cada um. E entretanto, tem-se gerado a ideia de que para atrair e reter talentos millennials, o espaço de trabalho deve gritar ‘Fun‘.
É verdade que se pusermos um jovem, ou até menos jovem, num escritório cinzento, ele se sentirá pouco inspirado e achará tudo à sua volta maçador. Mas se nos lembrarmos que a maioria trabalha em frente de um ecrã de computador com phones nas orelhas, desligado do que se passa à volta, será que a importância que dão à mesa de ping pong é assim tanta? Provavelmente, sim. Mas…
O que quero dizer, e inspirada num artigo de Ian Frisch, jornalista que escreve para várias publicações entre as quais a Bloomberg, é que o embrulho do escritório, por si só, não é suficiente para reter talentos. Há factores que são muito mais importantes, como:
- o feedback contínuo e imediato ao contrário das avaliações anuais
- a flexibilidade de poder trabalhar a partir de qualquer lado a qualquer hora
- o respeito e o reconhecimento sob várias formas (é bom lembrar que os millennials também gostam de dinheiro)
- a transparência das decisões
e que fazem com que um escritório cinzento possa ver o seu talento ficar e um escritório cool possa ver o seu talento fugir.

