Com Rita Lourenço – Directora Geral no Millennium BCP
Como descreve o seu estado de espírito actual?
Estou esperançosa. Os piores receios relativamente ao impacto funesto da pandemia na economia, felizmente, não se concretizaram. As empresas viáveis mantêm-se, as que só eram viáveis por comportamento em grey economy, ou desapareceram ou ajustaram práticas. O ambiente empresarial global vai ficar mais saudável. No plano pessoal, estou cansada de pandemia, como toda a gente, mas gosto de olhar para os pontos positivos, no caso, para a capacidade de adaptação e a flexibilidade que todos tivemos. E a verdade é que nos estamos a adaptar melhor do que se antecipava a este novo modo de viver.
Qual o seu maior receio neste momento?
Globalmente, receio que se esteja a menosprezar o ressurgimento da inflação. Grande parte dos gestores (todos abaixo de 45 anos) não sabem o que é gerir em inflação, não passaram por isso, mas não é coisa boa. Espero muito que tenha razão o BCE e a generalidade dos Bancos Centrais e que este reaparecer da inflação seja um “surto” temporário, que a reposição das cadeias de abastecimento e a redução da incerteza social e económica (por passagem da pandemia a endemia) resolva – se não antes – em 2023.
Num plano pessoal e social, receio pelo impacto que 2 anos de vida fechada tenham no desenvolvimento emocional e cognitivo, na socialização e na aquisição de capacidades sociais das crianças e jovens. E penaliza-me muito que os mais velhos estejam a perder tempo precioso em que podiam estar mais com os seus mais queridos e com isso enfrentar com mais respaldo as maleitas físicas e psicológicas que a velhice traz
Qual a maior extravagância que por estes dias lhe apetece fazer?
Uma grande festa com os meus amigos, em que nos pudéssemos abraçar e rir e dançar e cantar, como fazíamos antes, sem distanciamento social nem transgressão de nada. Só desfrutarmos da amizade, da companhia e da alegria de estarmos juntos.
Qual a frase/expressão que mais tem utilizado ultimamente?
“Bora lá”, isto faz-se!
Fez alguma descoberta acerca de si própria durante o confinamento?
Pela natureza do meu trabalho, eu estive pouco confinada, apenas naquelas semanas de final de março e início de Abril de 2020. A minha rotina diária, por isso, não se alterou por aí além. Mas quando todas as manhãs chegava ao Banco, faltavam as pessoas, a cor, o calor de um “BOM DIA” dado e recebido várias vezes logo a dar força ao arranque do dia. Não descobri, porque já sabia, mas tornou-se muito evidente que sem pessoas fisicamente próximas, os dias são mais pobres, menos luminosos e aprende-se muito menos sobre a vida.
Fez alguma descoberta acerca dos que lhe são próximos durante o confinamento?
Na verdade não, reagiram todos como eu esperaria que reagissem se pudesse ter antecipado um cenário de “ficção científica” como o que vivemos, sobretudo no primeiro confinamento: uns mais fechados, outros menos, mas nenhum mostrou nenhuma faceta que eu totalmente desconhecesse. Quando muito, tive algumas surpresas no grau.
Qual tem sido a sua ocupação favorita?
Bom, trabalhar, que é o que me ocupa 12 ou mais horas de cada dia e que adoro fazer. Nas semanas em que estive confinada, ocupação favorita era caminhar, de cara ao ar e sem barulho de carros nem de aviões, caminhar só e dar atenção ao detalhe dos lugares, em que raramente reparamos.
Se tivesse mais uma vida o que faria com ela?
Faria qualquer coisa muito diferente do que tenha feito com esta, não porque esta tenha corrido mal (até agora), mas pelo bónus extra que me daria a oportunidade de experimentar diferente. Provavelmente, dedicaria tudo à família e a trabalho social, com idosos, de preferência, que é com quem mais se aprende e que menos prezados são na nossa arrogante sociedade ocidental. Estudar História Contemporânea e Religiões (não é Teologia, é mesmo o fenómeno da religiosidade dos Humanos, é isso que me intriga e fascina) seria uma coisa a também fazer na vida bónus, mas conto ainda fazer um pouco nesta vida que tenho.
O que gostaria que fosse diferente depois do Covid 19?
Um maior respeito pelo ambiente, pelo clima, pelos fatores de sustentação da vida no planeta, com atitude individual e maior responsabilidade social. O ESG não pode ser uma sigla que fica bem nos Relatórios e Contas das grandes empresas. Tem que ser uma prática, com consequência.
O que gostaria que se mantivesse?
Puxando a brasa à minha sardinha, gostaria que se mantivesse – melhor, que crescesse – o uso dos meios digitais e da Inteligência Artificial em benefício das pessoas, facilitando-lhes a vida e não apenas invadindo-a sem benefício para as próprias.
Qual a sua fonte principal de notícias actualmente?
Media digital (deixei de ler jornais físicos muito antes da pandemia), podcasts de economia, de opinião e de tertúlia (a Impresa tem uma boa oferta de podcasts).
Nos media digitais nacionais, percorro diariamente o Publico, o Expresso, o Negócios, o Dinheiro Vivo.
Que livro recomendaria nesta altura?
Recomendar livros depende sempre de a quem se recomenda, há poucas experiências mais íntimas do que ler um livro. É a vida de cada um que dá conteúdo e perfume ao que lê. Digo-vos os que li recentemente ou estou a ler e que, por eu gostar, recomendo a quem partilhe de gosto semelhante: Helena Ferrante foi para mim uma revelação, quase uma epifania. É uma escrita de mulher, que releva sentimentos, pensamentos, atos que só uma mulher releva assim. Recomendo os quatro livros da quadrilogia “Amiga Genial”. Se quiserem uma coisa mais curta, mas soberbamente excelente também, não percam as “Crónicas do Mal de Amor”, dela, também. Nos autores portugueses, recomendo o João Tordo (“Felicidade”, “Hotel Memória”, só para referir os dois que li neste Verão, mas na verdade sou leitora assídua dele). Estreei-me há pouco no Leonardo Padura (imperdoável não ter começado antes, mas o tempo …) e estou a ler “O Homem que gostava de cães” – estou a gostar muito – depois de ter lido “O Quarteto de Havana I”, não cheguei ao II, gostei menos.
Continuando em estreias, iniciei-me no Audible.com, muito útil para ocupar a cabeça nas 2 horas de caminhada que faço ao sábado e ao domingo. Estou a ouvir o “Trillion Dollar Coach”, do Eric Scmidt, Jonathan Rosenberg e Alan Eagle (o coach é o Bill Campbell) e comecei a ouvir “The Age of AI”; do Henry Kissinger, Eric Schmidt, Daniel Huttenlocker, mas o narrador é péssimo, larguei.
Qual foi o último espectáculo a que assistiu (cinema, teatro, concerto…)?
Fui ver há dias o filme “Mães Paralelas”, do Almodovar, não perco um dele … E no streaming ando a ver o “GET BACK”, no Disney Plus, um “must watch”, absolutamente imperdível. É em casa, mas é espetáculo, e que espetáculo! Emociona até às lágrimas, ficam já a saber os incondicionais dos Beatles como eu …
Bancos ou Fintechs?
Ambos. A cooperação é benéfica para ambos. As Fintechs têm o que falta aos Bancos: estrutura de custos flexível, agilidade, apetite de risco, tolerância a erro, atitude challenger. E os Bancos têm o que falta às Fintechs: Clientes, conhecimento alargado dos clientes, confiança, segurança, capacidade de investimento, player sólido no ecossistema. Juntar os dois só pode ser favorável. E é. Para o cliente final, que é o que faz a diferença.
Qual a sua banda sonora para estes dias?
Eu ouço muita coisa diferente, assim tivesse mais tempo … nestes dias, em concreto, a minha banda sonora tem sido o Ray Charles e a Nina Simone, no Spotify. Andam ambos sempre aqui próximos, seja qual for o contexto … laços antigos.