A banalização da felicidade

 In Coaching, Cultura de Empresa, Desenvolvimento, Employer branding, Gestão de Talento, Mudança, Propósito

Na semana passada fui ao cinema e, antes do início do filme, três anúncios publicitários no ecrã tinham como tema a felicidade. É verdade que a publicidade vende sonhos – normalmente a incitar fazer as pessoas mais felizes. Mas desta vez o que me deixou a pensar foi o facto de serem três anúncios seguidos a marcas totalmente diferentes, mas todos com o mesmo tema.

Pensei que se a publicidade fala em felicidade, é sinal de que a palavra se está a banalizar. E, como tudo o que se banaliza, acabará por perder significado. Eu própria já este ano aqui escrevi sobre bem-estar e felicidade nas empresas, embora numa perspectiva de reflexão sobre o que está por trás desta “mania” de felicidade que nos está a invadir.

Entretanto, mão amiga relembrou-me um poema de Alberto Caeiro que tomo a liberdade de aqui reproduzir:

Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as coisas humanas postas desta maneira,
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seriam melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!

Comecei a pensar se as pessoas que não querem “inventar a máquina de fazer a felicidade”, serão justamente as que sabem que a felicidade não se fabrica, nem se encontra. Ao mesmo tempo dou de caras com uma edição da revista Time, cujo tema central é The art of optimism. Das entrevistas feitas a 34 pessoas que se distinguem em várias áreas há um fio comum – elas podem levar-nos a “mudar a maneira como vemos o nosso mundo”. Será que as pessoas optimistas e que contribuem para mudar o mundo são felizes?

Bill Gates, um dos entrevistados, fala em Leonardo da Vinci que, na sua opinião, foi um optimista pela inovação que levou a cabo, com o consequente avanço no conhecimento humano e a melhoria da vida de milhões de pessoas. Joy Buolamwini, cientista informática que fundou o algoritmo Justice League, partilha, na mesma edição, a experiência que a levou a descobrir como a inteligência artificial pode ser enviesada e levar a práticas discriminatórias. Preeti Mistry uma chef de cozinha, recorda como no final do dia 11 de Setembro de 2001, o seu escape foi ir para a cozinha e começar a preparar o jantar para si e para a sua namorada, “o acto de cozinhar uma refeição conectou-me com qualquer coisa na minha alma”.

Escolhi estes três exemplos mas os outros 31 também nos mostram que a vida com um propósito pode contribuir em muito para a nossa felicidade. E dei comigo a pensar: propósito é o que falta por vezes nas empresas. Mais do que mesas de ping pong ou massagens ou poufs, ofereça um sentido ao trabalho que as pessoas fazem e é vê-las felizes.

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